Eu comprei um notebook e precisava escrever qualquer coisa com ele, e enquanto minha vida anda menos resolvida que a de um peru em época de natal eu simplesmente não consegui dar andamento em nenhum dos livros que já andava pendente e a última coisa que restou foi dar sequência ao conteúdo do blog, e aí enquanto assistia mais uma das minhas séries conforto, porque realmente é isso que sobra para um homem solteiro além dos trinta sem mulher e filhos fazer nas horas vagas, além de escutar Lana del Rey enquanto se pergunta como sua vida chegou nesse ponto.
Pois bem, vamos começar com o fato de que ninguém que transforma sua própria vida em sitcom conta a história real, porque a história real, principalmente no Brasil, é Os Miseráveis para baixo sem a elegância do musical, apenas a Fantine doente, desempregada, sem a filha e fantasiando dias de glória que só existiram na cabeça dela. Então eu vou esquecer completamente a minha vida real porque todos nós sabemos que nela é surpresa eu nunca ter ido parar num tribunal nem ter conhecido um delegado de polícia no meio madrugada, coisa que minha psicóloga até deve achar estranho eu nunca ter contado nas histórias.
Aí certamente eu começaria entrando na minha casa de classe média após um dia cheio no trabalho e subiria as escadas para pegar o cofre disfarçado de livro e comer os chocolates que escondo ali enquanto finjo ler, mas minha esposa me para. E minha esposa seria alguma coisa do tipo Peyton List, loira, alta, bonita e mais nova que eu com um sério e decadente mal gosto para homem que para mim viria bem a calhar. E ela me diria sobre os filhos na escola, dizendo que quer que eu converse com o Ted sobre suas notas da escola. E sim, nosso filho teria nome de cachorro porque aparentemente nas séries de comédias familiares esse tipo de coisa é uma comédia em particular, ali, nenhuma criança pode ser normal, sempre tem que ter alguma coisa para ser explorada até enjoar. Então eu subiria as escadas e encontraria o Ted, do alto de seus catorze anos na frente da penteadeira passando base nas unhas (e voi-la, começam a divulgar a série de graça no Twitter enquanto discutem se meu filho que na vida real nem tenho é gay e se passar na Globo melhor ainda porque seremos levantados a Woke) e então eu me sento com ele e pergunto a ele o que está acontecendo na escola e ele me diz que como conselheiro eu sou um excelente cronista e desde a última vez que eu invadi seu facebook e descobri as páginas que ele curte sobre comidas chiques o conselho mais provável que eu darei vai envolver comparar massa de macarrão com meninas. É nesse momento que acredito que o telespectador é quem vai começar a se perguntar como a vida dele chegou nesse ponto e The Silva’s será cancelado nos primeiros dez minutos pela emissora, que ainda me processará e me cobrará pelo tempo perdido sem exibir qualquer coisa que daria mais dinheiro, tipo, sei lá, uma reprise de Esquenta!
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